Ao longo dos meus anos como terapeuta cognitivo-comportamental, vejo no consultório um padrão recorrente: a expectativa de que, uma vez que começamos a tratar traumas e transtornos ligados ao estresse, não haverá mais retrocessos. Mas, diferente do que muitos esperam, o caminho da recuperação raramente é reto. A experiência clínica, aliada a relatos de quem já trilhou esse processo, mostra que lidar com recaídas, lapsos e dias difíceis faz parte da jornada de superação. Neste artigo, quero compartilhar o que aprendi acompanhando pessoas que buscam uma vida melho.
O ciclo da cura: por que recaídas acontecem?
Quando falo sobre tratamento de traumas e de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), costumo comparar o processo à cicatrização de uma ferida profunda. Não basta fechar a pele; são necessárias diversas etapas, cada qual apresentando desafios e avanços. E sim, às vezes, feridas reabrem antes da definitiva cicatrização.
Por isso, a recuperação de um trauma ou de TEPT costuma ser uma trajetória de avanços e retrocessos. O próprio Ministério da Saúde reconhece a importância do monitoramento constante mesmo após os primeiros tratamentos, como é feito no controle de cura para malária, mostrando que todo processo de recuperação envolve supervisão e cuidados contínuos, inclusive para recaídas (orientações do Ministério da Saúde sobre controle de cura).
A cura é um processo de idas e vindas, não um ponto final.
É comum que o medo de voltar a apresentar sintomas provoque sentimentos de fracasso. Mas já presenciei muitos casos em que o retorno de sintomas, na verdade, trouxe novas possibilidades terapêuticas, ao escancarar temas ainda não trabalhados.
O que pode disparar a recaída no trauma?
No convívio diário, vários elementos podem retomar emoções ligadas a traumas. Esses disparadores recebem o nome de “gatilhos”.
Você já percebeu que determinada data, cheiro, som ou até uma notícia pode reativar antigas sensações, mesmo que a razão diga que “não há motivo”? Essa é a força que os gatilhos exercem após um trauma.
- Datas marcantes: Aniversários, feriados, épocas ligadas ao evento traumático.
- Sensações físicas: Cheiros, temperaturas, sons semelhantes aos que marcaram o trauma.
- Notícias ou fatos externos: Notícias, postagens, ou contextos similares ao ocorrido.
- Locais, pessoas, situações: Estar em lugares ou com pessoas que trazem lembranças.
Muitas vezes, as pessoas não reconhecem o que serviu de gatilho. Das conversas em consultório, noto que nem sempre identificar o motivo acalma de imediato, mas ajuda a dar sentido à experiência, reduzindo sensações de controle perdido.
Recaída completa, lapso ou apenas um dia ruim?
Eu costumo dizer aos meus pacientes: nem todo retrocesso é sinal de um recomeço absoluto ou de fracasso no tratamento. Existem diferenças que precisam ser reconhecidas para reduzirmos o peso do julgamento interno.
- Lapso: Episódio breve e isolado de sintomas intensos. Exemplo: uma crise de pânico num momento específico.
- Dia difícil: Período em que a pessoa sente mais sensibilidade e tristeza, mas sem uma volta completa ao padrão anterior ao início do tratamento.
- Recaída completa: Retorno consistente de sintomas antigos, por vários dias ou semanas, com impacto no funcionamento geral.
A auto-observação atenta costuma ser o primeiro passo para diferenciar essas situações. Já ouvi relatos de pessoas que, ao nomearem o ocorrido como “um lapso”, conseguiram adotar estratégias de acolhimento imediato, evitando a ampliação do sofrimento.
Grounding: Como se aterrar em meio à crise?
Durante episódios de ansiedade aguda ou recordações intrusivas, técnicas de grounding – ou de aterramento – podem ser ferramentas valiosas. Eu utilizo frequentemente com pacientes, tanto presencial quanto online. E sempre reforço: cada pessoa pode se adaptar melhor a uma estratégia.
- Foque nos cinco sentidos: Observe, toque ou cheire objetos próximos, descrevendo mentalmente detalhes. Isso ajuda a trazer a atenção para o presente.
- Exercício dos 3-3-3: Veja três objetos, ouça três sons, mexa três partes do corpo. Simples, rápido e eficaz.
- Respiração consciente: Inspire e expire lentamente, contando até quatro em cada etapa. Sentir o ar entrando e saindo acalma.
- Ancoragem física: Sente-se e pressione os pés contra o chão, sentindo o contato. Repita mentalmente onde está e o que está fazendo.
- Palavras de apoio interno: Fale com você mesmo como falaria com alguém que ama: “Você está em segurança agora”.
Essas técnicas são parte do repertório oferecido em terapias cognitivas, como praticadas por mim. A experiência mostra que quanto mais cedo são aplicadas durante um momento de crise, maior a chance de impedir a escalada dos sintomas.
Por que a recaída não significa fracasso?
Uma das maiores dores no tratamento do trauma é o sentimento de que, ao recair, toda evolução foi perdida. Quero deixar claro que a ocorrência de recaídas é sinal de que o tratamento está lidando com camadas profundas. O estudo apresentado por pesquisadores americanos mostra, inclusive, como traumas antigos podem gerar impactos anatômicos e funcionais cerebrais mesmo décadas depois (dados do estudo em mulheres que sofreram abuso sexual).
Recair não é falhar. É voltar a olhar para partes feridas que ainda precisam de cuidado.
Em minha prática, percebo que quando acolhemos uma recaída com compaixão, reconhecendo sua função, abrimos espaço para integrar novos aprendizados e estratégias de enfrentamento. Ressignificar esse momento ao lado de um profissional pode ampliar o crescimento pessoal e o fortalecimento emocional.
Estratégias para transpor as recaídas no tratamento
Ao longo dos atendimentos, aprendi que enfrentar recaídas tende a ser menos doloroso quando contamos com um plano de ação estruturado. Existem caminhos que favorecem a retomada do equilíbrio emocional:
- Reconheça rapidamente os sinais de alerta: Mudanças de humor, insônia, irritabilidade, crises de ansiedade repetidas. Quanto antes identificados, mais cedo pode-se agir.
- Busque apoio: Grupos terapêuticos, familiares confiáveis, rede de apoio. Compartilhar reduz o peso do autojulgamento.
- Retome práticas que funcionaram: Exercícios, diário emocional, rotinas que ajudaram anteriormente. Voltar ao que traz conforto pode reequilibrar rapidamente.
- Evite interpretá-la como retrocesso absoluto: Encare como chance de conhecer mais sobre você e o trauma trabalhado.
- Consulte seu terapeuta: O olhar externo pode oferecer perspectivas novas e ressignificar experiências dolorosas.
Artigos do conteúdo sobre trauma abordam relatos e práticas úteis para quem busca compreender seus próprios processos de recaída e superação. Muitas pessoas também encontram insights valiosos em leituras sobre saúde mental e reflexões acerca de terapia cognitiva.
O papel da autocompaixão: acolher a humanidade do processo
Eu acredito que tratar-se com gentileza diante de episódios difíceis é um passo-chave. A autocompaixão não elimina o sofrimento, mas permite atravessá-lo com menos culpa. Praticar autocompaixão é reconhecer que sentir dor não desqualifica todo avanço conquistado.
Encorajo o exercício diário do autoacolhimento: olhar-se como olharia alguém querido. Muitas pessoas relatam que, com treino, passam a se cobrar menos e a persistir no tratamento, mesmo depois de recaídas.
Quando reforçar ou ajustar o acompanhamento psicológico
Alguns sinais indicam que pode ser hora de retomar sessões terapêuticas com mais frequência ou ajustar o plano de cuidado:
- Reaparecimento de sintomas intensos e duradouros.
- Sensação de incapacidade para as tarefas diárias.
- Ideias de autossabotagem ou desesperança persistente.
- Falha das estratégias previamente eficazes.
Nestes casos, oriento sempre a buscar o suporte do terapeuta. No trabalho realizado por mim, notamos que mudanças na frequência dos encontros ou inclusão de novas técnicas são capazes de impulsionar o processo outra vez, reforçando a capacidade da pessoa de reorganizar sua vida. Muitas vivências compartilhadas por aqui também são abordadas no conteúdo sobre ansiedade.
É possível prevenir retrocessos?
Embora não seja viável garantir que não haverá recaídas, é possível reduzir as chances. Isso passa por um autoconhecimento constante e um plano de autocuidado ajustado regularmente.
Na minha experiência, práticas simples como exercícios regulares, conexão social, atenção à alimentação e sono, além da reflexão sobre crenças e pensamentos, somam significativamente na manutenção dos avanços ao longo do tratamento. Mas, acima de tudo, a vigilância amorosa sobre si – sem julgamento exagerado – protege contra recaídas mais intensas.
Conclusão
O processo de recuperação no tratamento do trauma, seja em TEPT ou não, é marcado por altos e baixos, avanços e tropeços. A recaída faz parte da natureza humana frente a experiências profundas e dolorosas. A cada retorno de sintoma, surgem oportunidades de crescimento e ressignificação, desde que haja apoio, autocompaixão e um manejo ajustado dos gatilhos. Em minha prática, tenho visto histórias reescritas e vidas transformadas, mesmo após períodos turbulentos.
Se você sente que está enfrentando uma recaída, lembre-se: este momento não define você. Procure um acompanhamento adequado, fortaleça sua rede de apoio e permita-se experimentar as estratégias apresentadas. Agende uma conversa conosco para conhecer novas formas de lidar com essas questões e seguir adiante na sua jornada de transformação.
Perguntas frequentes sobre recaída no tratamento de trauma e TEPT
O que é recaída no tratamento de trauma?
Recaída é quando sintomas ligados ao trauma ou ao transtorno de estresse pós-traumático retornam após um período de melhora. Pode envolver ansiedade intensa, flashbacks, insônia, entre outros sinais. Ela não indica falha, mas sim que existem aspectos do trauma que merecem novos olhares e intervenções terapêuticas.
Como reconhecer sinais de recaída em TEPT?
Os indícios costumam aparecer como o reaparecimento de sintomas antigos: lembranças invasivas, pesadelos, evitação de situações, irritabilidade e sensação de alerta constante. Caso esses sintomas retornem por vários dias, é recomendável buscar acompanhamento profissional.
O que fazer após uma recaída no trauma?
Após identificar uma recaída, sugiro praticar autocompaixão, utilizar técnicas de grounding para estabilizar o momento, registrar os gatilhos e retomar o contato com seu terapeuta. Compartilhar o que está sentindo, ao invés de se isolar ou autossabotar, melhora a recuperação.
Recaída no TEPT é comum durante o tratamento?
Sim, episódios de recaída são comuns no tratamento do TEPT e de outros transtornos ligados ao trauma. O caminho da recuperação é feito de etapas; por isso, recaídas funcionam como uma oportunidade para aprofundar o autoconhecimento e ajustar estratégias na terapia.
Como prevenir recaídas no tratamento de trauma?
Construir uma rotina de autocuidado, identificar e evitar gatilhos quando possível, manter práticas aprendidas em terapia, e sempre buscar apoio ao perceber sinais de alerta. É importante lembrar que cada pessoa terá seu próprio tempo e estratégia, e que o tratamento pode ser ajustado de acordo com necessidades e conquistas.